LEI Nº 13.410, DE 8 DE JANEIRO DE 2026.

 

Dispõe sobre a denominação de “Helenice Querino Vernaglia” a Rua 22, com início a rua 19 e término em cul-de-sac, Loteamento Parque Santa Cristina, e dá outras providencias.

 

Projeto de Lei nº 768/2025 – autoria do Vereador João Donizeti Silvestre.

 

A Câmara Municipal de Sorocaba decreta e eu promulgo a seguinte Lei:

 

Art. 1º Fica denominada “Helenice Querino Vernaglia” a Rua 22, com início a Rua 19 e término em Cul-de-Sac, Loteamento Parque Santa Cristina.

 

Art. 2º As despesas com a execução da presente Lei correrão por conta de verba orçamentária própria.

 

Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

 

Palácio dos Tropeiros “Dr. José Theodoro Mendes”, em 8 de janeiro de 2026, 371º da Fundação de Sorocaba.

 

FERNANDO MARTINS DA COSTA NETO

Prefeito Municipal

em exercício

DOUGLAS DOMINGOS DE MORAES

Secretário Jurídico

AMÁLIA SAMYRA TOLEDO EGÊA

Secretária de Governo

MAURÍCIO AUGUSTO COIMBRA CAMPANATI

Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Urbano

Publicada na Divisão de Controle de Documentos e Atos Oficiais, na data supra.

ANA CAROLINA GOMES DOS SANTOS

Chefe da Divisão de Controle de Documentos e Atos Oficiais

 

Esse texto não substitui o publicado no DOM em 12.01.2026

 

JUSTIFICATIVA:

 

Helenice Querino Vernaglia, uma professora filha de Sorocaba, que plantou e regou a infância de milhares de crianças. Uma professora como poucas. Nasceu em 16 de janeiro de 1937, no bairro do Além Ponte, Sorocaba. A nona de dez filhos de Ambrosina Maria do Espírito e de José Querino, ambos representantes de um tempo que deixou saudades na história da nossa cidade. Dona Ambrosina era lavadeira, lavava roupa no rio Sorocaba, engomava e passava. Era muito requisitada pelas famílias de maior poder aquisitivo. José Querino (Juca) era funcionário da Estrada de Ferro Sorocabana, de onde tantos sorocabanos tiravam o sustento de suas famílias.

Foi estudar no Colégio Santa Escolástica, se me lembro bem de seus comentários, havia uma área para as meninas pobres, seu caso. Ótima educação, mas uma época da qual não lembrava com carinho, pois sentiu a segregação de classe.

Fez o Curso Normal, equivalente ao Colegial no Estadão, se formando Professora Primária em 1957, aos 20 anos de idade.

Este foi um ano importante, pois foi no baile de formatura, realizado no ginásio de esportes que iniciou no namoro com Edmundo Migliorini Vernaglia, com quem se casou e viveu por 55 anos e com quem teve duas filhas.

Assim que se formou, por intermédio de seu irmão Oswaldo Querino, foi trabalhar como secretária na fábrica de Tecido Santa Maria, uma importante indústria à época. Ficou um dia! Sabia o que queria: nasceu para ser professora! Começou a dar aulas no então Curso de Admissão, equivalente a um cursinho para admissão no Curso Ginasial.

Em 1962, foi admitida como professora no SESI, iniciando assim o que foi uma longa e apaixonante carreira no ensino. Foram trinta anos dedicados a uma instituição que admirava e fazendo aquilo para o que nasceu, ensinar.

Sempre trabalhou em dois períodos, e no início de suas atividades no Sesi, fez parte de um grupo de professoras que iam nos bairros afastados buscar por alunos, em especial na Vila Barão, região onde lecionou até se aposentar.

Ávida por conhecimento, trabalhando em dois turnos, mãe de duas filhas e tendo que cuidar da casa, foi a aluna número 272 da Faculdade de Letras, hoje UNISO, tendo concluído o curso em 1983.

Se aposentou por tempo de serviço, mas não queria parar de ensinar e logo começou a lecionar no Estado. Foram mais dez anos dando aulas, agora para o Ginásio. Foram quarenta anos ininterruptos levando conhecimento a crianças que muitas vezes não tinham o que comer em casa.

Depois da dupla jornada de trabalho, arrumar a casa, fazer o jantar, iniciava o terceiro turno. Planejamento da aula, preparação, no mimiógrafo, das provas (era tinta para todo lado) que seriam aplicadas aos alunos. Fazia isso com o coração, um copo americano cheio de café com açúcar até a metade, para espantar o sono.

Era comum também passar as madrugadas fazendo bolos e brigadeiros para celebrar o aniversário de uma aluna, um aluno, já que sabia que em casa, estas crianças não teriam aquela felicidade. Foram incontáveis as vezes em que preparou lanches, sempre de madrugada, feliz da vida, porque iria levar seus alunos para visitar o Museu. Acreditava que era importante mostrar na prática o que aprendiam em sala de aula. Lanche, bolos, transporte, tudo pago de seu bolso.

Quando os alunos voltavam para sala de aula, faziam um pequeno livro contando o que haviam visto e faziam uma exposição.

Ler era primordial. Admirava diversos autores em especial Rute Rocha, Monteiro Lobato, Ziraldo - Menino Maluquinho, eram obras recorrentes para seus alunos. Todos tinham que recontá-las de seu jeito fazendo um minilivro com edição, capa e ilustração, que eram expostos na escola.

Era uma pequena grande mulher. Do alto de seu 1,5 metro, não se conformava com o "não dá". Se era para ensinar, se era para dar as bases sólidas do conhecimento, sem o qual aquelas crianças não teriam chances na vida, tinha que ser possível!

As histórias são muitas, mas a que mais marcou foi a de um aluno, que estudava na unidade do SESI que ficava na rua Francisco Escarpa, próximo ao prédio da Banda Carlos Gomes. Ele andava de cadeira de rodas, e ela tinha imensa admiração por ele e sua família. Imagino a dificuldade de locomoção dentro daquela pequena unidade escolar (da qual tenho lembrança muito carinhosa). Havia escada na entrada e escadas para acesso às salas de aula. Era um aluno inteligente, que escrevia muito bem. Dizia ela: ele não pode andar, mas voa livre quando escreve! O levava carregado ao banheiro quando necessário, e fazia isso com amor de professora, com amor de mãe. Me lembro de um presente que recebeu de sua família.

Era um pássaro de madeira, pernas compridas de metal, sobre uma bela base. Creio que era uma garça. Por muitos anos esteve em lugar de destaque em nossa casa. Ela tinha um cantinho com todos os presentes que recebia de seus alunos.

Não eram poucos. Em casa reforçava a importância do conhecimento, a importância do professor (e formou uma filha médica veterinária e a outra engenheira). Ela dizia incessantemente, o quão era importante a primeira professora, aquela que tem papel de desenvolver o fio condutor do conhecimento que será para toda vida. Este fio condutor é a alfabetização.

Já com 65 anos, decidiu parar de lecionar. Ministrava aulas naquele momento para o Curso Colegial e via uma mudança na postura dos alunos para com os professores. Já havia um "Q" de menor respeito e maior agressividade. Mas estava em plena atividade, ainda não era hora de parar.

Seguiu ministrando aulas particulares para crianças com dificuldade de aprendizagem. Se os pais podiam pagar? Bem, isso era irrelevante! Paga quem puder, o que importa é ensinar.

E a esta altura da vida já tinha alguns outros alunos também especiais. Seus netos. Se era para ensinar o tempo era infinito. Deu aulas também para os adultos, como é o caso do "Tonho" que trabalhava o dia todo, sol a sol, e depois ia ter aulas para aprender ler e escrever.

Com mais tempo disponível, era hora de ajudar aqueles que não tem família. Visitas ao asilo São Vicente de Paula e a Casa do Menor passaram a ser mais constantes. Gostava de cantar e tinha aulas de violão. Não era muito boa nestas duas nobres atividades, mas não se importava e lá ia ela levar um pouco de canção para quem precisa de atenção.

Em 20 de setembro de 2013, aos 76 anos e em plena forma, ela se foi. Ficaram as lembranças de uma profissional que sempre dizia aos seus alunos: seja o que for fazer na vida, seja o melhor. E o caminho era o estudo, a leitura a educação.

O professor é o fio condutor, o que ela representou com dedicação, amor, alegria, prazer e acima de tudo com habilidade e qualidade.

Uma sorocabana "de raiz" que deu a sua contribuição, energia e carinho para milhares de crianças e jovens e ajudou a nossa cidade a tornar-se o que é: uma das melhores do nosso amado Brasil.

Diante da relevância de sua trajetória, da contribuição social para Sorocaba e da justa homenagem que sua memória inspira, propõe-se a denominação de uma via pública com seu nome, de modo a perpetuar sua história e inspirar novas gerações.

Assim, contamos com o apoio dos nobres colegas para a aprovação do presente projeto de lei.